Flechado por indígenas isolados, Rieli Franciscato era “a última barreira que os protegiam”, diz sertanista

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Um grande defensor dos indígenas isolados e, talvez, a última barreira que protegia esses povos em Rondônia. Essa foi a definição que o sertanista José Carlos Meireles deu sobre o colega Rieli Franciscato, morto na última semana na região de Seringueiras (RO) vítima de uma flechada no peito.

Rieli era um grande defensor do não-contato com indígenas de aldeias isoladas e trabalhava há mais de 30 anos pela proteção desses povos. Ele entrou na terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau acompanhado de dois policiais e um indígena da etnia Kampé, após a notícia de que índios isolados haviam aparecido na cidade. Durante a incursão para fazer o rastreamento do grupo, foi atingido por uma flecha disparada por um desses indígenas.

“Se esses indígenas isolados estão vivos até hoje é graças ao Rieli. É a obrigação proteger esses povos, só que esse povo não sabe que você está ali para protegê-lo. Se esse índio isolado confundiu o Rieli com um invasor porque ele não sabia quem era o Rieli, ele flechou a última barreira que os protegia, infelizmente”, comenta o sertanista.

Meireles também foi vítima de uma flechada em 2004, mas sobreviveu. “O Rieli não teve essa sorte. Tenho certeza que se ele não tivesse morrido com essa flechada, ele iria voltar para a área e continuar com o trabalho dele”.

O presidente do Instituto Brasileiro Indigenista, Sydney Possuelo, ainda acrescenta que o coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Uru-Eu-Wau-Wau, da Fundação Nacional do Índio (Funai), travava batalhas para a proteção dos povos na região.

“O Rieli pertencia a essa velha guarda, esse pessoal mais antigo da Funai que fazia da Funai como se fosse uma trincheira de luta para defender os povos indígenas”, comentou.

A notícia abalou entidades que trabalham na proteção de indígenas, lideranças de diversas etnias, colegas de profissão, amigos, e principalmente a família.

“Quando eu ouvi a notícia eu fiquei sem palavras, não consegui acreditar”, disse a mãe de Rieli.

Segundo o irmão, Roberto Franciscato, o indigenista “morreu fazendo o que mais gostava da vida dele, que era defender os isolados”.

Rieli Franciscato deu uma entrevista à Rede Amazônica em 2019 e falou sobre as invasões de terras indígenas — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução

Rieli Franciscato deu uma entrevista à Rede Amazônica em 2019 e falou sobre as invasões de terras indígenas — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução

Apaixonado pelo trabalho, Rieli há muito falava sobre os problemas causados pelas invasões em terras indígenas. Em uma entrevista dada em julho de 2019 à Rede Amazônica, ele comentou sobre o isolamento desses povos e as consequências da degradação ambiental na área.

“Se eles não procuram a gente é porque eles não têm nenhum interesse de estabelecer relação com a gente. Então a gente tem que respeitar essa vontade deles. Os isolados vivem exclusivamente da floresta, então se não tem floresta, não tem possibilidade de vida para eles. A grilagem de terra aqui é muito forte. A parte norte da terra indígena Uru-Eu está toda invadida, embora existam ações da Funai e do ICMBio na região, não tem sido suficiente para conter essas invasões”, disse o indigenista.

Ao comparar as flechas dos Uru-Eu-Wau-Wau com as fotos da flecha de bambu de 1,5 metro que matou Rieli, os indígenas acreditam que ela seja dos Yvyraparakuara.

“Dentre o grupo dos Uru-Eu-Wau-Wau que não fizeram contato com a sociedade, esse grupo vive isolado dentro do território”, conta a indígena Koembu.

Em julho deste ano, um grupo de indígenas isolados apareceu na cidade e trocou uma carne de caça por uma galinha e ferramentas. Especialistas acreditam que era o mesmo grupo.

Para os indigenistas, o aparecimento mais frequente de indígenas isolados é uma consequência direta do aumento das invasões do território, como o próprio Rieli alertava.

A Funai não quis gravar entrevista sobre a morte do funcionário, mas divulgou um vídeo do presidente da fundação, Marcelo Xavier.

“Rieli era um servidor exemplar. Esteve por mais de 30 anos na proteção dos indígenas isolados. A Funai já deslocou uma equipe até o estado de Rondônia para dar todo o apoio e suporte logístico necessário”, disse.

Para os líderes indígenas, além da tristeza da perda, fica a preocupação com o futuro incerto.

“Os povos indígenas isolados de Rondônia perderam, infelizmente, um dos maiores defensores. Acredito que a única garantia da proteção territorial e física deles”, disse o líder indígena Beto Marubo.

Quem era Rieli Franciscato?

Nascido no Paraná, o servidor da Fundação Nacional do Índio (Funai) saiu do estado de origem com sete anos, passou por Mato Grosso e chegou em Rondônia no ano de 1985.

A família de Rieli, com tradição na agricultura, foi para uma propriedade vizinha: a terra indígena Rio Branco. Em 2015, em entrevista a pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), Franciscato relatou que na infância não tinha muito conhecimento sobre a cultura indígena.

“E eu, de índio, sabia aquilo que aprendemos na escola! Não sabia nada, ou seja, sabia que o índio era sujo e que comia comidas diferentes, estranhas”, declarou Rieli na época.

Rieli Franciscato se aproximou dos indígenas, se tornou um forte aliado e atuou na defesa do território contra invasores que roubavam madeira. Ficou conhecido e foi indicado pela Funai para começar um trabalho com os indígenas isolados da Reserva Biológica do Guaporé, em 1988.

‘Flecha no peito’

O policial Paulo Ricardo Bressa, amigo de Rieli, narrou os momentos que antecederam a morte do sertanista (ouça abaixo). Segundo ele, os indígenas não contactados apareceram próximos a um acesso viário conhecido como ‘linha 6’ em Seringueiras. Bressa e outra colega da corporação estavam de plantão e acompanharam a ocorrência de averiguação.

Os policiais e Rieli adentraram a região seguindo as pegadas dos indígenas. Quando chegaram na divisa, segundo o relato, viram a placa da reserva com aviso de entrada proibida. Então Rieli começou a subir um morro. A intenção era fazer um trabalho, à distancia, de monitoramento, para averiguar a migração dos povos isolados.

“A soldado Luciana estava atrás dele e eu um pouquinho atrás dela. A gente só escutou o barulho da flecha, que pegou no peito dele. Aí ele deu um grito, arrancou a flecha e voltou pra trás correndo. Ele conseguiu correr de 50 a 60 metros e já caiu praticamente morto. Nosso amigo se foi, infelizmente”, disse Bressa.

Terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau — Foto: Juliane Souza/G1

Terra indígena Uru-Eu-Wau-Wau — Foto: Juliane Souza/G1