Bonecas velhas recolhidas no lixão são usadas para espantar ladrões e maus espíritos

Bonecas velhas recolhidas no lixão são usadas para espantar ladrões e maus espíritos
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Uma catadora que trabalha no lixão da capital conseguiu assustar até animais domésticos após resolver arriscar no sobrenatural para poder dormir mais tranquila.Elas saíram de uma espécie de cemitério do que não presta mais para virar proteção contra coisas ruins. Pode até parecer um paradoxo, mas não é. As bonecas que assustam pela aparência foram jogadas no lixão e lá estavam em meio as sucatas, sujeira, urubus e tudo quanto é tipo de entulho que se possa imaginar.

Paula (o nome é fictício) trabalha como catadora e cruzava por elas, pisava em cima, as ignorava todos os dias, pois seu objetivo era procurar material reciclável que pudesse ser vendido e até comida ainda em condições de consumo. Certo dia, observou duas bonecas ainda conservadas que poderiam servir de brinquedo para suas filhas. Pegou elas e jogou em um saco junto com outras coisas que levaria para casa. Afinal é no lixão que ela, há 15 anos, consegue ajudar no sustento da família formada pelo marido e duas filhas adolescentes.

 

Uma garrafa em forma de caveira também é usada para espantar os visitantes indesejáveis

 

Paula mora em uma casa simples de 4 cômodos,  conta que o que tem de maior valor são meia dúzia de galinhas criadas soltas no pátio. O local é uma espécie de sítio, emprestado por um amigo há mais de 10 anos e que nunca cobrou aluguel da família. “É o meu cantinho, onde vivo muito feliz com meu marido e as crianças”, comenta Paula quando indagada sobre o que acha do local.

ROUBOS

Certo dia, Paula e o marido saíram para trabalhar e as meninas foram para a escola. Quando voltou para casa percebeu que ladrões estiveram na residência. Arrombaram a única porta existente e reviraram algumas coisas sem levar nada. O prejuízo foi constatado ao perceber no pátio que algumas galinhas tinham sumido. Os ladrões roubaram 04 galinhas bonitas, grandonas, poedeiras e que já podiam virar uma grande galinhada para pelo menos umas 10 pessoas saciar a fome.

Foi uma grande tristeza, pois as galinhas eram o prato chique, como Paula mesmo define, quando chega uma visita especial. Quem seria o ladrão ou ladrões? Paula e o marido não tinham nenhuma ideia já que onde moram é bem afastado, embora a casa fique às margens da BR 364, e ninguém consegue chegar sem chamar a atenção. Respiraram fundo, assimilaram a perda e deixaram quieto. Outros roubos ocorreram.

Quando aconteceu o quarto roubo em sua casa Paula se desesperou e pediu um conselho de sua mãe. A senhora de quase 70 anos de idade ouviu com atenção o drama da filha e olhando paras as duas bonecas catadas no lixo e que foram penduradas em uma árvore do lado de fora da casa porque as filhas de Paula não as quiseram.

Coloque essas bonecas no portão minha filha, elas vão ‘proteger’ a casa contra ladrões ou visitas indesejadas. E se encontrar mais no lixão pode trazer e espalhar pela porteira”, falou. Paula achou estranho o conselho, mas resolveu fazer o que sua mãe havia pedido.

BARREIRA QUE ESPANTA ATÉ ANIMAIS

Logo na primeira semana após o conselho da mãe, Paula conseguiu outras 04 bonecas no lixão e trouxe para casa do jeito que estavam sem condições de uso ou recuperação. Em 90 dias o portão de madeira que dá acesso ao sítio onde Paula reside já estava coberto de bonecas. Elas tem tamanho, cores e aparência diferentes. Algumas só tem o pescoço, outras não estão vestidas ou estão com apenas uma parte das vestes.

Amarradas na cerca de arame também é possível encontrar bonecas sem o rosto, sem cabelos, sem pés. Uma boneca com um longo vestido, parecendo uma baiana chama atenção não só pelas vestes, mas também pelas duas cabeças que lhe cercam. Em cima dos mourões que sustentam a cerca é possível observar também um boneco no formato de coruja, um vidro em forma de caveira cheio de enfeites de pimenta e colares de bolas e a ossada da cabeça de um boi.

 

Todas as bonecas foram encontradas no lixão de Porto Velho e foram colocadas depois de um conselho da mãe de Paula

O cenário é estranho e assustador até para quem já sabe do porque tudo aquilo está exposto ali. O mais impressionante, segundo depoimento da própria Paula, é que após ela enfeitar a cerca e o portão nunca mais ninguém roubou nada no local.

O curioso é que, explicou Paula, até cachorro e gato, que eram comuns surgirem do nada, de repente desapareceram. A pergunta é: E quem será que arriscaria ficar por perto diante de um cenário, no mínimo, esquisito?

O marido e umas das filhas concordaram em tirar uma foto para a reportagem mas não falam sobre a finalidade das bonecas. O marido de Paula somente afirma que não houve mais roubos no local e concorda que a esposa acredita que algo sobrenatural garante a segurança para eles.

 

O marido de Paula e a filha evitam falar sobre as bonecas, mas dizem que desde quando colocaram elas na frente da casa, os furtos acabaram.

 

RELIGIOSA E DEVOTA

Paula usa dois colares no pescoço, um de São Francisco de Assis, o santo protetor dos pobres, e Jurema das Matas, um espírito que prega a simplicidade e reafirma a crença que todos serão sempre iguais. No dia em que a conheci me recebeu no portão já dizendo que não queria fotos nem falar sobre as bonecas. Ficou um tempo me observando enquanto eu argumentava a curiosidade sobre as bonecas e o quanto elas chamam a atenção para quem passa na BR e vira os olhos para o lado da casa.

Em dado momento interrompeu a conversa e me pediu para entrar abrindo a porteira de madeira recheada de bonecas. Enquanto eu insistia sobre a curiosidade do local e o motivo de tudo aquilo no portão, ela foi explicando que foram “os guias espirituais” que concederam poder as bonecas para proteger o sítio.

A mulher me levou até um salão de festa abandonado, distante uns 200 metros nos fundos de sua casa, onde algumas imagens de santo cobertas por moedas estão sobre uma mesa velha de madeira.

Ela abriu uma janela e mostrou uma grande sala onde centenas de morcegos se aglomeram no telhado. Também me levou até um igarapé localizado um pouco mais à frente do salão de festa onde segundo ela uma Sucuri gigante aparece algumas vezes.

 

De fato, para quem chega no local pela primeira vez e vê as bonecas penduradas na cerca, as primeiras sensações são de espanto e medo

 

De repente começa a chover e ela diz para voltarmos, pois não pode se resfriar e correr o risco de ficar sem trabalhar. No retorno até portão agradeço a gentileza de ter me dado atenção e peço desculpas por ter-lhe tomado o tempo. Ela disse que a conversa foi boa e que posso voltar outras vezes. Finalizou com um argumento:

– Tua aura é boa, vai ser sempre bem vindo.

Agradeci, mais uma vez, a receptividade e fui embora olhando para as bonecas e pensando no que ela me disse. Aqui não entram mais ladrões à noite e nem gato ou cachorro. Pois é Paula, e nem eu também me arriscaria.

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